“Existe a Chama e existe o óleo.
A Chama – divindade suspensa dentro e acima de nós – é o símbolo a vida de seu próprio plano, os mundos ardentes.
Ela é soberana e livre no seu próprio reino: expansão e novas altitudes sempre renovadas, plataformas inexauríveis de Realidade perfeitas em contínua formação.
A Chama existe acima do óleo em glória e deleite cósmico, como um pássaro perfeito, hermético na auto-contemplação de seu profundo mistério.
O óleo nasce do misterioso e vasto lagar do psiquismo humano. Ele nasce e refina-se no processo humano de gradual entrega ao Divino.
A Chama não nasceu nunca, não tem idade: um Olho Intemporal, uma imperativa e suprema Palavra de Fogo.
A Chama pertence e reina nos mundos ardentes.
O óleo nasce lenta e laboriosamente na intercepção entre o mundo subjectivo da experiência interior e as Câmaras internas de Aspiração Ardente – na fixação secreta de estratos progressivos de Amor-sabedoria-compaixão do grande Fogo, segregação inclassificável da oculta e inconsciente oração do mundo.
Se a Chama vem de Deus, o óleo é a verdadeira e única oferta do Homem ao Infinito. A sua capacidade de dar ignição no mundo ao mais alto de todos os Fogos.
A Chama vem de Deus, como um Deus ela mesma, prístina e heólica, um arauto da Permanência Cósmica Central, um guerreiro da inalterância.
A Chama existe acima do Homem num planar livre e auto-suficiente. Soberana, irradiando a sua luminescência esfíngica e enigmática a Chama permanece acima do Homem, imprevisível, indeterminável e transcendente – o tesouro do alquimista, o vôo arrebatador do místico, o mistério tremendo do gnóstico, a Lei Imutável do ocultista, o Amor Maior do poeta espiritual.
O mundo existe pela Chama, contudo a Chama nada deve ao mundo.
A Chama existe em completude, elegância e perfeição. O mundo oscila entre crepúsculo e obscuridade, meias verdades e erros totais.
“E se o mundo se deve elevar e atingir uma condição final, última, cada nova tracção, cada novo impulso, cada nova revelação transformadora é feita através do óleo sagrado de um Homem em total rendição ao Supremo.
Pode a Chama descer ao mundo? Pode o mundo ser erguido à Chama?
Sim. Esse é o Planalto de vastas operações que a humanidade em breve irá desvelar.
A Chama desce ao mundo através da mediação sagrada e do poder subtil do óleo.
Na aproximação ao mundo a Chama dança e o anunciar da Última Forma, a dança da Última Terra, a dança do fogo sólido.
O refinamento do óleo é o cântico do mundo, a dança das formas, a alternância entre dor e alegria. O refinamento do óleo é a segregação do mundo, a razão de ser das coisas múltiplas – o produto de uma existência progressivamente consciente.
Estando além da forma, contudo, na sua aproximação ao mundo, a Chama anuncia uma forma culminante, a Dança da Terra Última, a dança do Fogo Sólido, a perfeição da matéria.
O óleo – combustível sagrado da combustão espiritual profunda – é o resultado da alquimia da força-vida em nós, da mole de força-mundo que é lançada contra nós, em nós, através de nós, da potência da vontade-de-ser do Homem cumprindo o seu próprio ego e, superando-se, alçando a níveis além-ego, além mundo.
Contudo, ao elevar-se, o Homem é transformado em um vaso de Chama, e mais além, é transfigurado na sua identidade cósmica, permitindo que a Chama, através dele, se revele ao Universo Exterior.
E assim a Chama transubstancia o Abismo Molecular.
Nossa elevação tem como efeito retroativo a geração de canais de descida do Divino.
O eu psíquico é a face da alma que encarna – pois a alma tem uma outra face, o eu superior, que permanece acima da consciência de vigília. Assim o eu psíquico é um prolongamento da Luz-Paraíso a partir da Centelha Divina presente em cada ser humano. Um prolongamento na direcção das formações exteriores, formações emocionais, mentais, físicas.
As sínteses progressivas de fragmentos desconectados de experiência, a cultura oblíqua de uma Verdade Cósmica emergente e a doçura, compaixão e abnegação que o eu psíquico manifesta a cada passo são um lagar onde o óleo sagrado é espremido e refinado.
O refinamento dá-se, principalmente, por absorção de forças obscuras e reenvio dessas forças de novo à sua origem, purificadas e reordenadas.
O discípulo em refinamento e preparação para a combustão sagrada, é um Coração-Dínamo, um Coração-Estrela, um Coração-Verdade. A ele chegam correntes de mentira e ilusão, de magma primordial ancestral e de semi-verdades.
Finalmente, repetindo em si a Grande Verdade Oculta – ele ordena o caos. Dele partem correntes de luz límpida, de tonalidade cristalina, de simetria exacta, de penetração profunda e de potência dourada, formações autorizadas de Amor-cura, de Amor-paz, de Amor-consciência.
O resultado desta alquimia refina o óleo da união com o supremo Ser dentro de si e, automaticamente, purifica , purifica o mundo.
O mundo e a sua espantosa e contínua contradição de luz e sombra, entre semi-verdades e crueldade óbvia, entre momentos de ternura e compromisso e a sua negra crônica quotidiana fornece o cenário onde o grito emergente da alma por uma realidade Maior necessariamente amadurece, evoluindo de apelo incipiente a contínuo clamor.
O poder da alma encarnada para clamar pelo seu Senhor é imenso. O senhor virá quando o chamamento for contínuo, a nota tímbrica oculta for exacta e o cântico-chamamento estiver vibrando em um planalto claramente espiritual.
O discípulo avançado é uma encarnação desse contínuo clamor por mais Vida, mais Luz, mais Realidade.
Ao eu psíquico corresponde a tarefa de conscientemente refinar o óleo sagrado que alimenta a união. Ele deve concentrar o chamamento interior num único ponto, numa única idéia, num único facto profundo, um único valor alvo.
Os focos emocional e mental devem estabilizar-se num mesmo ponto de converxão e atracção de todas as energias psíquicas em torno de um mesmo pólo de máxima vigilância, máxima tensão, máxima consciência.
A oração-activa, enquanto momento especial, ritual, de união com o Divino, deve dar lugar a um estado contínuo de abertura ao alto.
O fim da oração activa anuncia o nascimento do Ser-Templo.
O refinamento dá-se, justamente, pela rejeição gradual de todo o elemento estranho à pura adoração da Vida Divina. A cada purificação consciente emerge uma nova resina preciosa, elevando a qualidade do óleo. A cada passo de superação de um apego ou de um cenário ultrapassado mais se perfuma o óleo da união interna.
A cada insinuação da força-mundo e da vontade-vital em seus múltiplos disfarces o eu psíquico aprende a absorver Amorosamente o conflito, a confusão, a incompletude e os hiatos na continuidade cósmica e, sem julgamento, sem postura absoluta, sem rigidez, mas movido pelo Amor à perfeição, à única realidade, movido pelo Amor das coisas realmente grandes aprende a elevar essa obscuridade. Essa matéria prima da cruz do mundo, no altar da oferta de si ao Supremo.
O sofrimento e a dor por si mesmos não podem elevar o ser humano ao Divino – se assim fosse o mundo estaria saturado de seres iluminados – pelo contrário, é a capacidade de, centrado no planalto olímpico da compaixão, o Homem poder compreender, iluminar e transformar a dor em luz, o medo em Amor e a violência em união.
Quanto de cada um de nós é necessário dar, quanto Amor invisível, quanta sabedoria – a ressonância Supramental do Amor – é necessário conquistar em nós mesmos para que estes nódulos de incomunicação possam ceder e dar passagem à luz?
Verdadeiramente grandes são os seres que ancoram em si a operação da alquimia do mundo. E, ainda que se aproximem da condição semi-divina de Atlas, eles cultivam a consciência de que são apenas canais de reversão do processo de decisão cósmico.
“A Vós, ó Fonte e Origem Supremas, entrego a obscuridade, a dor e a inverdade do mundo. Nas Tuas mãos entrego a massa obscura e inerte, a vaidade e o ódio, a longa espera dos povos e o desespero de tuas criaturas. Nas Tuas mãos entrego toda a dor que chega a mim, bem como o meu próprio tormento e vazio, nas Tuas mãos entrego a sombra que invade Tua criação.”
Assim, ora o eu psíquico, na noite profunda, no lagar do óleo sagrado. A cada abnegação, a cada silêncio construtor, a cada nova verdade vibrada no éter, a cada palavra de paz e mansidão se opera a alquimia do combustível da união. O refinamento prossegue.
A Pura Presença tudo dissolve, tudo cauteriza, tudo cura. A Pura Presença tudo renova, tudo transforma em luz. Ela contêm o segredo das múltiplas dualidades. Ela contêm o segredo do mundo enquanto processo evolutivo.
Na Pura Presença tudo se transforma em aumento de potencial. A dor, a tristeza e a alegria, tudo se revela como escola de um vasto panorama cósmico. Em Deus todo o desencontro reemerge resolvido na consciência como uma nova potência hidráulica, como uma mola de ascensão.
Para o quê virá a Chama? A Chama vem para iluminação e libertação do mundo. A Chama vem como um emissário que elimina o tempo e estabelece o princípio da PAZ UNIVERSAL.
Como pode a Chama ancorar no mundo, se o mundo evolui pelo tempo, se o mundo aprende pela dor, se o mundo proclama a dualidade?
È a contínua aspiração e silenciosa dádiva de si que permite que a Chama ancore no mundo. Ancore através do peregrino. O nosso trabalho, enquanto eu psíquico é realizar e refinar esse óleo.
Em linguagem bíblica o óleo é chamado “o azeite da lamparina”. Na psicologia esotérica chama-se o “Caminho Longo”.
A vinda do Senhor é a Chama, que subitamente acende o pavio. Conhecida como “o “Caminho Curto”.
O Caminho Curto – refinamento do óleo – é um trabalho de construção.
O Caminho Curto – a invocação da Chama do Deus Interior – um relâmpago de auto-revelação. Um instantâneo de luz, verdade e poder, envolvido pela absoluta realização de que somo deuses em transito pelo espaço-tempo: somo gigantes adormecidos, olhos dormentes sob a insciência da substância.
O Caminho Longo é uma construção e um refinamento que é vivido nos corpos da personalidade humana. O Caminho Curto começa com uma realização transcendente no plano mental superior, com impacto directo sobre a personalidade.
Não é possível existir Caminho Curto sem um prévio percorrer do Caminho Longo, pois o relâmpago da auto-revelação não vem apenas para o deleite e deslumbramento do místico mas para a conquista e soberania absolutas sobre a antiga natureza humana.
O relâmpago da auto-revelação – a Chama – necessita de descer abaixo do mental superior e instalar-se no centro de resposta de cada veículo humano – físico, emocional e mental.
Numa primeira fase a nossa vida – acções, pensamentos e motivações – deve ser de tal forma vivida que invoque a chegada da Chama. É uma etapa de aspiração e chamamento interior.
Numa segunda fase nossa existência deve permitir que a Chama permaneça após chegar. Tudo o que é vago, medíocre, grosseiro e anti-divino será eliminado pela própria presença da Chama, desde que a nossa entrega seja completa.
É uma etapa de entrega e sinceridade: Nesses momentos, ainda que verde a lenha humana é seca pela intensidade da Presença.
Numa terceira fase é necessário que a Força Divina descendente tome conta dos corpos, não apenas ao nível da inibição, rejeição e expurgo do que é velho e superado, mas como uma potência de total reconstrução da natureza dos corpos, uma revisão cósmica da substância e devir dos próprios veículos humanos. É uma etapa de Iniciação e transfiguração.
A cada Peregrino o cosmos pede que cuide das condições que permitem à Chama permanecer ancorada no reino humano.
Se a Chama se aproxima e o ser não fez o Caminho Longo seria como tentar acender uma lamparina que não tem óleo: a Chama pode inclusive ser intensa, mas será necessariamente breve.
Por outro lado se o ser que está percorrendo o Caminho Longo, persiste estritamente no processo de Caminho Longo, com sua contínua auto-análise, auto-referenciação, e lenta alquimia – ele poderá bloquear a descida do fogo interno, única realidade que finalmente dará sentido ao óleo que ele tem estado a produzir.
O refinamento do óleo e o poder de combustão implica o limar das arestas que nossos corpos apresentam a cada momento. Ninguém vai fazer isso por nós. É um trabalho ligado à vigilância, à humildade, à bondade, à coerência e à integridade. Trata-se de assumir uma postura absolutamente nua e autêntica perante nós próprios.
O quotidiano – na verdade, simplesmente a forma como o universo se nos apresenta a cada momento – é um processo de refinamento interior. De refinamento das preciosas resinas da psique.
Subitamente dá-se o advento da Chama. Este acontecimento inesperado indica que o refinamento da psique atingiu um grau exato.
Mas, qual é o grau exato?
Segundo um ancestral adágio esotérico o caminho para Shamballa é o caminho da inofensividade total: ahimsa.
O Coração Gentil – inofensividade total – acontece no seio secreto da mente, no núcleo onde os pensamentos germinam, no centro profundo onde as meta-ideias ganham forma: não à superfície, mas na consciência profunda, na total ausência da compulsão de ferir, da compulsão de competir, de ofender. Na verdade, ahimsa é a completa irradicação do potencial de magoar, seja em que nível for.
